Olá queridos!
Esse é o primeiro livro que leio do premiado autor Mia Couto, que nasceu em Moçambique. Ele tem uma obra literária diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crônicas. Comecei por essa coletânea de poemas e gostei muito.
Sinopse: Coletânea de poemas, que é dividida em três temas: idades, cidades, divindades.
É difícil falar de poesia. Devemos ler os poemas, senti-los e interpretá-los cada um à sua maneira.
Em idades, o autor fala do tempo; em cidades, sobre padre, doença, morte, entre outros; em divindades, de amor, saudades, Ilha de Moçambique, entre outros assuntos.
Eu achei a escrita do autor muito sensível e tocante.Separei dois poemas para compartilhar aqui com vocês. Espero que gostem!
Sem depois
Todas as vidas gastei
para morrer contigo.
E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.
Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.
Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.
Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?
Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.
Todas as mortes gastei
para viver contigo.
O amor, meu amor
(Para a Patrícia)
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.















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